Hábitos e novos tratamentos ajudam a redesenhar o cuidado do câncer

Hábitos e novos tratamentos ajudam a redesenhar o cuidado do câncer
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A Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), realizada entre os dias 29 de maio e 2 de junho em Chicago, nos Estados Unidos, trouxe novidades para pesquisadores e pacientes. Além de um medicamento considerado revolucionário contra o câncer de pâncreas, o congresso também apresentou novos usos para fármacos já conhecidos, avanços nas terapias-alvo e achados sobre a importância do estilo de vida no cuidado oncológico.

“O congresso deste ano foi marcado não apenas por resultados expressivos em sobrevida, mas também por uma visão cada vez mais ampla sobre como prevenir, tratar e acompanhar pacientes com câncer”, avalia o oncologista Oren Smaletz, do Einstein Hospital Israelita, que esteve presente na ASCO 2026.

Promessa contra o câncer de pâncreas

Ovacionado pela plateia no congresso, o estudo internacional de fase 3 RASolute-302 praticamente dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático, uma das doenças com pior prognóstico entre os tumores sólidos. De acordo com o levantamento SEERS, do Instituto Nacional de Câncer (NCI) dos Estados Unidos, apenas 3% dos pacientes com essa condição estão vivos cinco anos após o diagnóstico “Sabemos que o câncer de pâncreas é uma doença que, infelizmente, na maioria das vezes é incurável. Por isso, buscamos fazer com que o paciente viva mais, tenha melhor qualidade de vida e enfrente menos efeitos colaterais. O estudo conseguiu trazer tudo isso”, analisa Smaletz.

A pesquisa avaliou o daraxonrasib, um inibidor multisseletivo de RAS(ON), em 500 pacientes com adenocarcinoma ductal de pâncreas metastático que já haviam recebido outro tratamento. Em comparação à quimioterapia convencional, o medicamento mais do que dobrou o tempo de sobrevida dos pacientes, que passou de 6,7 para 13,2 meses, reduzindo em 60% o risco de morte. Também prolongou o tempo em que a doença permanece sob controle antes de voltar a crescer, aumentou a proporção de pacientes com redução significativa do tamanho dos tumores e esteve associado a menos efeitos adversos graves.

Além disso, os pacientes tratados com a nova terapia demoraram mais para relatar piora da dor e da qualidade de vida. As expectativas para as próximas etapas são altas. “Hoje, quando a doença volta, muitas vezes precisamos dizer ao paciente que será necessário iniciar uma nova quimioterapia. No futuro, talvez possamos dizer que ele começará um tratamento com um comprimido por dia. Seria uma mudança enorme”, diz o oncologista do Einstein.

O trabalho amplia as perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos direcionados à família RAS, formada principalmente pelos genes KRAS, NRAS e HRAS, que atuam como importantes reguladores do crescimento, da divisão e da sobrevivência das células. Quando sofrem mutações, esses genes podem permanecer ativados, enviando sinais contínuos para a proliferação celular e favorecendo o desenvolvimento e a progressão do câncer.

A importância dessa via molecular se dá pelo fato de as alterações em RAS estarem entre as mais frequentes da oncologia e serem encontradas em diversos tumores, incluindo os de pâncreas, pulmão, colorretal e vias biliares. Por isso, os resultados do estudo podem ter implicações que vão além do câncer de pâncreas, fortalecendo uma estratégia terapêutica com potencial para beneficiar pacientes que compartilham essas alterações moleculares, independentemente do órgão de origem do tumor.

Novas indicações para medicamentos conhecidos

Outros estudos apresentados na ASCO em 2026 mostram como terapias já conhecidas avançam para fases mais precoces da doença e novos perfis de pacientes. Um dos exemplos mais importantes foi o estudo PROTEUS, realizado com 2.109 pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco, ou seja, tumores ainda restritos ao órgão, mas com alta possibilidade de se espalhar ou de retornar após o tratamento.

A pesquisa avaliou o uso da apalutamida associada à terapia hormonal antes e depois da cirurgia. Os resultados mostraram aumento superior a dez vezes na taxa de resposta patológica, indicador que aponta o quanto de tumor foi eliminado pelo tratamento antes da cirurgia. A terapia também reduziu significativamente o risco de recorrência e desenvolvimento de metástases.

A inovação é trazer para fases mais precoces da doença uma estratégia já utilizada em pacientes com tumores avançados. “Um dos principais objetivos era avaliar a resposta patológica após o tratamento. Os pacientes iniciavam a medicação e eram operados cerca de seis meses depois. O estudo mostrou que a chance de haver resposta dentro da próstata aumentou em mais de dez vezes”, destaca Oren Smaletz.

Outro destaque em câncer de próstata, o estudo TALAPRO-3 avaliou pacientes com doença metastática sensível ao tratamento hormonal e que apresentavam alterações em genes responsáveis pelo reparo de danos no DNA, como o BRCA1 e o BRCA2. A pesquisa testou a adição do talazoparibe (medicamento que bloqueia uma via conhecida como PARP e que dificulta o reparo das células tumorais) ao tratamento padrão com enzalutamida. Após três anos de acompanhamento, 77% dos pacientes que receberam a combinação permaneciam sem progressão da doença, contra 56% daqueles tratados apenas com enzalutamida.

Terapias-alvo com maior alcance

Em diferentes tipos de câncer, estudos mostraram o avanço de terapias-alvo, imunoterapias e dos anticorpos conjugados a drogas (ADCs). Menos conhecidos do público, os ADCs combinam uma droga anticâncer a um anticorpo capaz de reconhecer proteínas presentes na superfície das células tumorais A droga é guiada diretamente para o tumor.

“Essa provavelmente será uma das principais tendências dos próximos anos. Estamos vendo os ADCs avançarem em câncer de ovário, bexiga, próstata, mama e pulmão”, destaca Smaletz. “Além disso, há um movimento importante de aprimoramento dessas drogas, com o objetivo de manter a eficácia e reduzir os efeitos colaterais.”

A transformação observada no tratamento do câncer de pulmão ao longo dos últimos anos ilustra o potencial das terapias-alvo. “Pelo menos para o grupo de pacientes que apresenta alterações genômicas acionáveis, esses avanços melhoraram o tempo até a progressão da doença, a sobrevida global e a qualidade de vida de dezenas de milhares de pessoas”, observa o oncologista Gregory Durm, do Melvin and Bren Simon Comprehensive Cancer Center, da Universidade de Indiana, nos EUA, à Agência Einstein. “Em alguns casos, esses tratamentos transformaram o câncer de pulmão metastático em uma condição crônica tratável, embora ainda não curável”.

Apesar dos avanços, um dos principais obstáculos para que esses benefícios alcancem mais pacientes continua sendo o acesso aos tratamentos. “A maior limitação é o custo. Eles são difíceis de serem acessados por muitos pacientes, mesmo em países com mais recursos e praticamente inacessíveis em países de baixa e média renda”, analisa Durm. “Não é ético que tenhamos avanços tão expressivos e, ao mesmo tempo, não consigamos disponibilizá-los para a população global”.

Estilo de vida como parte do tratamento

Nem todos os estudos de destaque da ASCO este ano envolveram medicamentos. Um dos trabalhos mais comentados avaliou como mudanças no estilo de vida após o tratamento podem influenciar a evolução da doença. O estudo de fase 3 CHALLENGE , apresentado no ano passado no mesmo congresso, abriu caminho para mais uma estratégia de melhorar os resultados em câncer. Ele investigou o impacto de um programa estruturado de exercícios em pacientes com câncer de cólon submetidos a cirurgia e quimioterapia.

A prática de atividade física foi associada a uma redução de 28% no risco de recorrência ou surgimento de um novo câncer e uma probabilidade 37% menor de morte. A taxa de sobrevida livre de doença em cinco anos foi de 80%, contra 74% entre aqueles que receberam apenas orientações gerais sobre hábitos saudáveis. A sobrevida global alcançou 90%, contra 83% no grupo controle.

Neste ano, um estudo realizado em sete centros oncológicos da Itália avaliou 492 mulheres com câncer de mama em estágios iniciais e investigou os efeitos de um programa baseado na Dieta Mediterrânea, com baixo índice glicêmico, caminhada rápida diária e suplementação de vitamina D. Embora a análise principal não tenha mostrado diferença significativa entre os grupos, as pacientes com tumores hormônio-positivos que aderiram mais intensamente às recomendações apresentaram risco 76% menor de recorrência da doença. O programa também esteve associado a perda de peso, redução do índice de massa corporal (IMC) e diminuição da prevalência de síndrome metabólica.

Esses achados reforçam uma mudança importante na forma como os oncologistas orientam pacientes após o tratamento. “Durante muito tempo, recomendamos alimentação saudável, atividade física e controle do peso porque acreditávamos que isso fazia bem de maneira geral. Agora, começamos a acumular evidências mostrando que essas medidas podem estar associadas a desfechos importantes relacionados ao câncer”, reflete Smaletz. “Isso muda a conversa no consultório, porque passamos a ter dados mais consistentes para orientar os pacientes sobre hábitos que podem contribuir para sua saúde no longo prazo.”