Ansiedade, Sono E Concentração: Especialistas Explicam Como Chegar Bem Ao Enem

Por Cíntia Santos

A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) envolve mais do que revisar conteúdos e resolver questões. Com a proximidade das provas, cuidar da saúde emocional e manter uma rotina adequada de sono também são medidas importantes para os estudantes que enfrentarão horas de avaliação.

A pressão por bons resultados, o medo de não conseguir uma vaga na universidade e as expectativas familiares podem aumentar a ansiedade dos candidatos. Segundo a psicóloga Rafaella Boaventura, o Enem concentra diferentes expectativas em torno de um único resultado, levando muitos jovens a associar a nota à própria capacidade, inteligência e até ao seu valor pessoal.

Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão o medo de fracassar, a comparação com outros candidatos e a possibilidade de frustrar expectativas próprias e familiares.

A especialista orienta que os últimos dias antes da prova não sejam transformados em uma corrida para recuperar todo o conteúdo que deixou de ser estudado. Manter horários regulares de sono e alimentação, organizar os documentos e materiais necessários e priorizar revisões leves estão entre as recomendações.

A prática de atividades físicas, exercícios de respiração e meditação também pode ajudar no controle do nervosismo. “Descansar não significa perder tempo de preparação, significa oferecer ao cérebro condições melhores para funcionar”, destaca Rafaella.

Como identificar quando a ansiedade passa do limite?

O nervosismo antes de uma prova importante é esperado, mas é necessário observar quando os sintomas começam a prejudicar a rotina do estudante. De acordo com a psicóloga, a ansiedade natural costuma ser temporária e proporcional à situação. Ela pode provocar preocupação, frio na barriga e aumento dos batimentos cardíacos, sem impedir a realização das atividades cotidianas.

O sinal de alerta aparece quando os sintomas comprometem o sono, a alimentação, os estudos, as relações sociais e a capacidade de realizar a prova.

Entre as manifestações físicas estão taquicardia, sudorese excessiva, tremores, falta de ar, náuseas, tensão muscular e dores de cabeça. Já os sinais emocionais e cognitivos incluem irritabilidade, medo intenso de fracassar, pensamentos negativos recorrentes, dificuldade de concentração e sensação de bloqueio mental.

Quando esses sintomas são recorrentes, intensos e desproporcionais, o acompanhamento psicológico pode ajudar o estudante a desenvolver estratégias de regulação emocional.

O que fazer diante do famoso “branco”?

Durante a prova, a ansiedade também pode interferir na recuperação de informações e provocar o chamado “branco”. Rafaella explica que esse bloqueio pode ocorrer quando o nível de ativação emocional prejudica temporariamente a atenção e a memória de trabalho.

A orientação é interromper por alguns instantes a tentativa de responder, fazer respirações lentas, reler o enunciado com calma e identificar palavras-chave que ajudem a retomar o raciocínio.

Se a dificuldade persistir, o estudante pode passar para outra questão e retornar posteriormente. A psicóloga alerta que interpretar o bloqueio momentâneo como sinal de incapacidade pode aumentar ainda mais a ansiedade.

Para quem chega ao exame com a sensação de não ter estudado o suficiente, a recomendação é concentrar-se no conhecimento adquirido e evitar tentar recuperar todo o conteúdo nas últimas horas. “Não é necessário saber tudo para fazer uma boa prova”, orienta.

Qualidade do sono também influencia o desempenho

Além dos cuidados emocionais, o descanso tem papel importante na preparação para o Enem. A médica do sono e otorrinolaringologista Adja Oliveira explica que dormir adequadamente contribui para a consolidação do aprendizado e para a manutenção da atenção durante o exame.

A recomendação é que adolescentes durmam entre oito e dez horas por noite. Para adultos jovens, a referência é de pelo menos sete horas, embora a necessidade individual possa ser maior.

A falta de sono pode prejudicar a memória, a interpretação de texto e a capacidade de resolver problemas. Na prática, o estudante pode precisar reler um enunciado várias vezes, deixar passar informações importantes ou perder a sequência de um raciocínio.

“Em uma prova longa como o Enem, isso conta tanto na primeira questão quanto na última, quando o cansaço já pesa”, explica a médica.

Telas, café e energéticos: o que evitar antes de dormir?

Para melhorar a qualidade do sono na véspera, a especialista recomenda encerrar a revisão com antecedência, separar os documentos e materiais necessários e conferir o trajeto até o local de prova.

Também é importante evitar café e bebidas energéticas à tarde e à noite, diminuir a iluminação e manter o quarto escuro, silencioso e confortável.

O uso de celulares, computadores e redes sociais antes de dormir também merece atenção. Segundo Adja, a luz das telas pode dificultar a preparação do organismo para o sono, enquanto vídeos, jogos e mensagens mantêm o cérebro em estado de alerta.

Uma medida prática é desligar os aparelhos pelo menos 30 minutos antes de deitar e evitar deixar o celular ao alcance da cama.

A médica também recomenda que os estudantes não tentem alterar drasticamente o horário de dormir na véspera. A antecipação do descanso deve acontecer gradualmente nos dias anteriores.

E se o estudante não conseguir dormir na véspera?

A dificuldade para adormecer antes de uma situação importante é comum. Nesse caso, a orientação é evitar transformar o sono em mais uma fonte de preocupação.

A especialista recomenda não ficar conferindo o relógio. Se o estudante perceber que está acordado há algum tempo e ficando mais tenso, pode levantar, realizar uma atividade tranquila com pouca iluminação e retornar à cama quando sentir sono.

Também é importante evitar o uso de medicamentos para dormir sem orientação médica, já que alguns podem provocar sonolência e comprometer a disposição no dia seguinte.

O resultado do Enem não define o futuro

A preparação emocional também envolve aprender a lidar com a possibilidade de não alcançar a nota esperada. Rafaella Boaventura ressalta que o resultado de uma prova não determina a identidade, a inteligência ou o potencial de ninguém.

A psicóloga recomenda que os estudantes consigam separar o resultado da própria valorização pessoal, desenvolvam tolerância à frustração e compreendam que existem diferentes caminhos para chegar à universidade, incluindo novas edições do exame.

A orientação também se estende às famílias, que devem evitar reforçar a ideia de que o futuro dos filhos depende exclusivamente do desempenho no Enem.

Permitir-se sentir tristeza ou frustração diante de um resultado diferente do esperado faz parte do processo. O cuidado, segundo a especialista, é não transformar uma experiência pontual em uma definição sobre o próprio futuro.